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Após o grito de Kyanna, o tempo passou lentamente. Henry sentia suas pernas se moverem, mas parecia andar lentamente como se estivesse grudado ao chão e tentasse se livrar. O pânico e o medo o atordoavam a cada vez que Kyanna gritava um ordem, ou quando um marujo passava correndo para cumpri-la. Ele sentiu alguém lhe agarrar e acerta-lhe um tapa na face, isso o acordou de seu transe. Diante dele estava Mysha, fitando-o desesperada. "Vá para baixo! Proteja-se." Ela o empurrou na direção da portinhola e correu na direção oposta, pegando um par de pistolas e conferindo a munição. A adrenalina tomou conta de Henry, ele não se esconderia enquanto Mysha morria para defendê-lo. Não haveria sobreviventes se perdessem.

Ele correu na direção das armas e pegou uma espada, então ficou grudado a Mysha, um de costas para o outro. "Eu mandei você se esconder!" Gritou a mulher, olhando por cima do ombro. "Não vou dei-..." Henry não terminou de falar, o Canção da Sereia estava lado a lado e disparava sem cessar contra o o Fúria. Kyanna berrava suas ordens enquanto os canhões disparavam e alguns de seus marujos pulavam para o outro navio. Algumas balas de canhão danificaram o casco e o mastro do Fúria. Então, o pior aconteceu. A tripulação fantasma apareceu dentro do Fúria, atacando todos sem piedade ou sem hesitar. Fantasmas e mortos-vivos, como os Renegados, lutavam sem cessar. Mysha disparava contra os mortos enquanto Henry tentava golpeá-los. Assim a luta se seguiu por muito tempo, até que as balas de Mysha acabaram. Ela sacou a flauta e começou a tocá-la. Gelo se alastrou pelo convés, congelando os mortos em seus lugares. Um canhão disparou contra o Canção e partiu seu mastro ao meio, que tombou para o lado.

"Mysha, tenho que te contar algo." Berrou Henry, enquanto partia um morto-vivo ao meio. Mysha parou de tocar e sacou uma espada. "Péssima hora, Henry." Neste momento o gelo começou a derreter, libertando alguns mortos. "Pode não haver outro momento, Mysha!" Henry virou-se e a segurou pelos braços, o gelo derretia lentamente o que era uma vantagem. Ele a olhou nos olhos, aqueles olhos que mudavam de cor a cada piscada. Mas que brilhavam e crepitavam em magia arcana quando ela tocava um instrumento mágico. "Eu te amo, Mysha."  Ela o fitou com um olhar confuso, como se não acreditasse naquilo. Quando Mysha estava para responder, um navio guinou para o lado várias vezes, jogando-os no chão. Quando levantaram-se, estavam cercados por mortos.

Os mortos abriram passagem e um homem passou. Ele vestia as mesmas roupas que Kyanna, mas completamente pretas. Usava um tapa olho do lado direito, seu olho esquerdo era preto como suas roupas. Sua pele era pálida e mostrava um estado de putrefação. O capitão do Canção da Sereia aproximou-se do grupo e falou, sua voz era um eco sussurrante, mas ecoou como um trovão. "Eu vim buscar...O que é meu." Ele caminhou de um lado a outro, fitando o rostos de cada um, ele parou diante de Kyanna e cuspiu aos pés dela. A capitã tinha um grande corte no rosto, como garras. Ela sangrava muito e cambaleava, como se fosse desmaiar. "Você sabe que eu estou atrás de você...Apareça..." Ele olhava para Kyanna, mas não falava com ela, ele direcionava-se a alguém especial. "Apareça ou matarei sua amiga..." O capitão sacou um punhal e o colocou no pescoço de Kyanna, pronto para cortar sua garganta quando Mysha saiu do meio dos mortos. O capitão não a olhou, apenas riu e falou: "Ai está você...Achou que fugiria de mim? Você viu a maré dos mortos e sabe o que significa." Ele levantou-se e olhou para ela, sorrindo de modo perverso. Dois mortos deram um passo a frente e agarram Mysha pelos braços, ela não tentou se libertar. "Parte da tripulação...Por toda a eternidade." Ela falou. Henry sentiu seu coração pesar ao ouvir isso, ele tentou correr até a barda e soltá-la, mas foi impedido por vários mortos. "Eu vou. E em troca você os deixa ir."  O capitão riu com as palavras de Mysha e tornou a falar "Por que eu faria isso?" Mysha moveu os braços e soltou-se dos mortos que a seguravam, ela deu um passo a frente e ficou cara-a-cara com o capitão morto. "Eu sei outro modo de quebrar sua maldição."  Sua feição severa logo se desfez, ele pareceu duvidar de Mysha mas nada falou. Henry olhou para ela e viu a mentira em seus olhos. Ela estava garantindo que os outros vivessem.

"Que seja. Bem vinda a tripulação, maruja." Falou o capitão. Vários mortos deram risadas a medida que a visão de Henry escurecia, ele viu seus companheiros caírem e logo ele em seguida. Quando acordaram, o Canção com sua tripulação e Mysha...Haviam desaparecido.

Tiveram que retornar a praia da velha Elethir, onde pediram ajuda com os feridos. A velha ajudou sem questionar ou dizer "eu avisei". Os que estavam em bom estado, logo começaram a trabalhar para reparar os danos do navio. Durante a noite, levantaram acampamento na floresta e por lá ficaram, bem longe da cabana da velha. Mas, durante a noite, Henry se esgueirou até lá. Elethir estava a porta, como antes, esperando. "Eu sabia que voltaria, jovem aventureiro." Ela abriu a porta e os dois entraram, ao sentarem-se ao redor da mesa, Henry logou falou: "Preciso salvar Mysha." A velha batucou suas unhas podres na mesa, sorrindo como uma criança. "Parte da tripulação para sempre, ou até que o capitão pague sua dívida de almas. Sua amiga está perdida."  Em tempos diferentes, Henry teria chorado e aceitado a perda. Mas agora ele lutaria para trazê-la de volta. "E o que me diz de... Uma alma por outra?" O sorriso da velha se desfez, ela o fitou com certo medo. "Quem se colocaria no lugar dela? Talvez funcione mas... Quem iria?" Henry ergue-se e caminhou até a porta, quando a velha repetiu a pergunta, ele apenas respondeu: "Quem irá não importa. Eu só a quero de volta." Ele saiu da cabana e retornou ao acampamento, onde passou a noite conversando com Kyanna, que aos poucos se recuperava dos ferimentos.

Quando amanheceu, Kyanna deu a ordem. Os marujos cercaram a casa da velha e a prenderam. Eles a amarraram ao novo mastro e começaram a navegar, ela berrava e amaldiçoava a tripulação e o navio. Kyanna apenas fitava o horizonte, esperando o navio. Quando a noite caiu outra vez, um navio apareceu o horizonte. Era o Canção da Sereia, mas não havia ninguém. Kyanna soltou a velha do mastro e subiu a bordo do Canção com Henry.

Assim que subiram, a tripulação apareceu. Mortos sedentos por sangue e prontos para matar. A velha tremia de medo e implorava pela vida, mas Kyanna e Henry permaneciam em silêncio, apenas fitando os mortos, até que Henry falou: "Eu exijo ver o capitão deste navio." Assim como quando Mysha chamou por Kyanna, os mortos viraram-se para trás a cada pisada que se dava no navio. O capitão saiu do meio da tripulação e falou: "Vieram se juntar a tripulação?" Alguns mortos deram risadinhas, mas a dupla continuou séria. "Viemos fazer um acordo. Uma alma por outra. Esta bruxa em troca de Mysha Ross." Kyanna chutou a velha, que caiu de joelhos diante do capitão. Ele a fitou por alguns instantes, agarrando seu rosto enquanto ela implorava pela vida. "Conseguirá viver com essa culpa? Que seja. Ela está livre para partir..." Todos desapareceram e apenas Mysha restou, acorrentada de joelhos no convés, seu rosto marcado pelas chibatas do capitão. Henry a carregou nos braços até o Fúria e lá tratou de seus ferimentos. 

Mysha ficou em silêncio por horas, até que finalmente falou: "Você deu Elethir par que eu fosse livre..." Henry a olhou, seus olhos revelando sua compaixão."Sim. E pelos seus ferimentos...O capitão descobriu sua mentira."  Ela deitou-se na rede e virou para o lado, fitando o casco do navio e os barris ao lado. "Deveriam ter partido e me deixado." Henry contornou a rede e ajoelhou-se, ficando cara-a-cara com ela. "Eu jamais a deixaria para trás, Mysha." As lágrimas escorriam pelos olhos de Mysha. Henry nunca soube a história dela, mas sabia que ela havia vivido muitos perigos para uma única vida. Ele deitou-se ao lado dela na rede, ela aninhou-se em seus braços e dormiu. Ali ficaram até o amanhecer. 

Quando Henry acordou, Mysha não estava mais lá. Ele subiu para o convés e a encontrou perto de Kyanna. Ambas estavam olhando um mapa e traçando uma nova rota... Ou um plano de batalha. Mas pararam de falar quando Henry e aproximou, Kyanna enrolou o mapa e se afastou com ele, deixando os dois a sós. "Mysha... Sobre o que eu disse ontem durante o ataque..." Mysha colocou o dedo indicador  nos lábios de Henry e murmurou: "Eu já sabia." Dando uma risadinha travessa, ela foi até a murada do navio, onde debruçou e fitou o mar. "Queria que essa fosse minha primeira aventura e que alguém que é importante para mim estivesse junto. Mas... Nunca pensei que chegaria aqui." Ele a agarrou pelo braço e a puxou para si, envolvendo-a em um forte abraço. "Mas já estamos aqui, então...Vamos seguir em frente." Ele inclinou-se para a frente e a beijou. Ela não tentou afastá-lo, mas não precisou, assim que seus lábios se tocaram um estrondo fez o navio tremer. Eles se afastaram e olharam a direção de onde veio o som. Kyanna já estava do outro lado, fitando a ilha que crescia ao horizonte.

"Voltamos?" Perguntou Henry a Mysha, mas ela o olhou confusa, não sabia onde estavam. Kyanna desceu da murada e fitou o casal."Como se caça uma fera? Você vai até ela. Não ela vem até você."  A capitã caminhou na direção do timão, e fitou a ilha. "A Ilha dos Mortos, é o único lugar que vão encontrar o Canção da Sereia." Mysha correu até ela e a agarrou pelos ombros, sacudindo-a como se tentasse acordá-la. "VOCÊ NOS CONDENOU!" Kyanna soltou-se de Mysha e riu.

"Não se pode vencer...Sem arriscar um pouco."

...CONTINUA...

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